quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Dois Cidadãos Brasileiros


Numa simples cena do dia-a-dia a alienação se esconde.

A prefeitura espalhou faixas por toda a cidade convidando a população para o descerramento da placa José Rotger Domingues.

- Você vai?
- Claro! Você viu o que vai ter?
- Cantores, cachaça, comida e circo...

Houve aquela pausa constrangedora entre eles, interrompida em seguida.

- Olavo?
- sim.
- Você sabe o que é descerramento?

Olavo o olhou, segurando o riso. E respondeu:
- não! kkkkk....

Os dois não conseguiram se segurar mais e romperam numa gargalhada gostosa de se ver.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Gerúndio

Ainda era noite, mas o amanhecer já se apressava. Não havia uma linha visível dividindo a escuridão da claridade, dizendo esse é x aquele é y. Sorrateiramente, a noite foi cedendo à luz opala que surgia com o prenúncio da alvorada. E o negro, foi descorando-se em matizes de cinza, chegando a um branco sujo, ao ponto, em que a noite e o dia fundiram-se em uma coisa só. A paisagem continuava a se mover lentamente. Mas isso não era fácil de se ver a olho nu, causando a impressão que tudo estava estático, e, no entanto, nada, nunca parou de se mover no universo.

Muito tempo antes de o dia clarear viam-se as luzes sendo acesas nas casas daqueles que precisavam sair antes que o sol nascesse; outros, não precisavam sair tão cedo assim. Beatriz levantara às cinco horas para fazer o café. Giusepe também estava acordado, mas não se levantou. Ele não entendia por que Beatriz levantava-se tão cedo se não tinham mais nada para fazer o dia todo.   

Giusepe deixava o dia acordar totalmente, até que os ruídos da manhã penetrassem pelas frestas da casa e viessem interromper seus pensamentos que se dispersavam no ar úmido de silêncio que a noite anterior deixava. Ele sabia muito bem, dali a pouco, o ronco do primeiro motor soará na rua principal, colocando a quietude da madrugada em segundo plano. Depois outro motor anônimo esticará seu grito, mantendo-se firme, até que o condutor, ainda sonolento, mude a marcha enquanto sobe a rua, depois outro motor, depois outros motores, até que os motores mais pesados dos coletivos predominarão sobre o trânsito. Os cães encadear-se-ão a latir os transeuntes que passarem para ir ao trabalho. O movimento dos carros, ao longe na BR 116, trará um murmúrio de ruídos apagados que se misturarão às vozes, aos latidos, aos inúmeros sons que farão o silêncio desaparecer totalmente pela manhã. A luz entrará pelas gretas da janela e os pios agradáveis dos pardais tornará insuportável ficar na cama. Ele ligará o rádio para ouvir as notícias, enquanto se lavasse. Depois se sentará à mesa e tomará o café. Terminará de escutar o noticiário na varanda, olhando fixamente a rua, até a hora em que resolvesse perambular pela vizinhança ou encontrar qualquer outra coisa para fazer. E a vida fora do seu eu retomasse a rotina já a sol claro, retrocedendo a luz às garras das florestas cerradas, ao oco das cavernas, recuando o silêncio para dentro dos homens onde permanecerá escondido em estado de reflexão até à noite seguinte, quando outra vez avançará sobre o dia. Preenchendo tudo em volta com esse silêncio imperial, calando a luz e libertando os seres noturnos.   

Lá fora o céu cinza, que se algodoara, pintara-se outra vez, agora de um azul cobalto, manchado por arquipélagos de nuvens brancas em aglutinação.  Um vento brando expulsou-as lentamente para o sul, enquanto outras nuvens mais brancas concentraram-se sobre o nascente como a massa sólida de um grande abacate branco, permanecendo assim por uns instantes. Aos poucos, de dentro das nuvens o sol foi sublinhando uma luz circular, como se o caroço do grande abacate figurativo se acendesse feito à auréola de uma lâmpada florescente e marcou-lhe no tecido externo um arco, que lentamente, colocara-se em movimento para o oeste até se transformar em uma bola de um branco mais intenso acentuando o horizonte irregular desenhado pelos tetos das casas que se estendiam sobre as costas do morro em que Giusepe e Beatriz moravam, parecido com o desenho de uma criança de três anos de idade.    
O sol agora já totalmente liberto das nuvens desprende-se também da encosta. A luz é intensa. Já não se pode olhá-lo a olho nu.  (Continua...)

Entre Muros

O primeiro muro é a dificuldade de fazer surgir aqui com palavras o muro tal como vejo.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

SÃO FRANCISCO DIZ QUE O DIABO NÃO EXISTE - CONTO

Quando o Brasil estava dominado pela ditadura a censura não permitia que quase nada fosse publicado. Em tudo os militares viam os tentáculos da subversão Bolchevista. Então os artistas para conseguirem passar pela censura, com críticas pesadas sobre o regime, produziam quase tudo disfarçado de uma arte que tinha a única função de entreter.  Fuçando os arquivos que ficaram sob o jugo militar daquele tempo, recentemente disponíveis para a consulta pública, descobri um texto que me parece o fragmento de uma peça escrito por um autor não identificado. E que achei muito interessante. Havia apenas a palavra "CENSURADO", grande, em diagonal, manuscrita com caneta picel vermelha e uma data em caneta esferográfica azul:"8 de dezembro de 1968" Era então vésperas do temido AI-5.

Esta data remete ao tempo em que morávamos em Osaco, meu pai era operário numa metalúrgica de eletrônicos e até então eu não entendia o motivo daquela tensão constante que os adultos viviam. Em frente a televisão eu, minha irmã zeza e mamãe torcíamos juntos para Maria Cristina ficar com Roberto Albuquerque em "A Grande Mentira", novela da 7, da rede globo. Às oito meu pai já havia chegado. Quando o Jornal começava tínhamos que ficar quieto. Tensão. Não podíamos comentar sequer alguma coisa: eu, zeza e mamãe. Eu não via nada de anormal.

O fragmento de peça de teatro de que estava falando, talvez uma cena só, remete metalinguisticamente a outra peça que se passa dentro da história e que está sendo ensaiada no teatro da Usp. Começa assim: Clara está sentada no canto do palco. Chega João Miguel vestido de São Francisco, fazendo carinho num pato de borracha. À medida em que João Miguel vai dizendo a sua fala vai tirando as vestes de São Francisco e se transformando no Diabo.

João Miguel - Dizem por aí que sou São Francisco (fala acariciando o pato). Que sou muito bom com os animais. Então eu aceito e confirmo: sou São Francisco como queiram. Gosto muito de ser chamado assim. Mas eu quero que entendam que eu muito me esforço para manter essa imagem e esse nome. A vida quando parece que é, não é, e quando temos a certeza que não é, aí é que é. As coisas às vezes sendo se transformam na frente dos nosso olhos para o não sendo. E no mesmo instante em que posso afirmar que isso é um pato (aponta para o pato de borracha) pode ser que ele deixe de ser um pato nesse exato momento. Quando digo pato pode ser que eu não esteja necessariamente dizendo animal de penas que vivem em lagos e em algumas cidades é caçado em temporadas pré-determinadas. (dá o pato a Clara) Pode ser que eu esteja querendo dizer outra coisa quando eu digo pato. Ou seja, homem sem penas, sem defesa, caçado em todas temporadas por jogadores compulsivos em cassinos argentinos. (João Miguel começa a tirar a fantasia de São Francisco e se transformar no Diabo) Pode ser que eu esteja irônico. E vocês mesmos pensem por si que eu não sou santo coissíma nenhuma, mas apenas um pato que se transformou num Santo para escapar de ser caçado e que possa ir engordar um honroso general de brigadas. Aquilo que vocês enxergam não é aquilos que vocês vêem. (A essa hora já está completamente transformado em Diabo) E se foi digo que não foi. Mas não pensem que de Santo só vivo a salvar patos, também em minha tarefa tenho a incumbência de salvar almas. E digo: não percam tempo com o Diabo, porque o Diabo não existe. Muita gente se benze quando o nome do cujo é dito. Eu não tenho essas preocupações. Diz um tal português Antero de Figueredo que ele existe. "Que ele é o tanso que apalerma; o carocho que sarna; o enguiço que tolhe; O azango que encanzina; o ozoneiro que engoda; o diacho que azaranza; o nico que nos aborrece; o careca que nos rala; o dianho que nos enreda; o tição negro que enfarrusca; a coisa má que ataranta; o caipira que conspira; Ele é o mafarrico; zé-bodelho; encourado; maldito; não-sei-que-diga; o desencaminhador; malasarte; porco sujo; cão tinhoso; o tisnado, zaparelho, o barzebu que nos corrompe" e adentra a dizer arcaísmos e neologismos para afirma que demônio existe. É uma ladainha que nos cansa. Pois digo, o tal não existe. O Diabo é folclore. Cuido dos animais, mas também cuido das almas. hahahahaahahahahahaah... Estou sempre vigilante. Sou santo e não careço de dormir. Todos vocês me reconhecem. Eu sou São Francisco. Quando seus olhos no espelho, refletem um pequeno brilho de ganância. Lá estou eu. Eu cuido das almas. Quando o ouro do poder os açoita a consciência entre o sim e o não. Lá estou eu. E parem com essa besteira de acusar o Diabo. O Diabo não existe. hahahahahahaahahah...
E o texto termina aí. Eu vi São Francisco se transformando no Diabo. Meu pai foi preso pelo vendedor de pipoca que há alguns dias havia começado a se fixar na minha rua, quando este se transformou medonhamente num personagem mostruoso à minha frente. Entrou chutando a porta de casa e levou meu paizinho. Lembro que enquanto reviravam a minha casa este homem-demônio olhava para mim. Eu tinha 8 anos. Seus olhos eram amarelo-vermelho vivo. Sua boca se transformou numa caverna com dentes enormes, pontiagudos, salientes. Salivava com fome de sangue. No tempo da ditadura muita coisa que diziam na verdade estavam querendo dizer outra coisa.  

A VONTADE DE PODER - ENSAIO

O que movimenta, que impulsiona, o homem para a disputa política? Encontramos em Wright Mills – citado por Hannah Arendt, em seu ensaio sobre a violência, de 1969 – uma frase sucinta que veio resumir o objeto dessa reflexão: “Toda política é uma luta pelo poder” (ARENDT, 1969,  p.31 apud PERISSINOTO, 2004, p. 116).  Com isso, nos veio uma outra pergunta: O que é esse objeto de disputa, o poder, quando ele passa a existir? Desta vez quem veio nos socorrer foi a própria Arendt, afirmando:
O poder nunca é propriedade de um indivíduo; pertence a um grupo e permanece em existência apenas na  medida  em  que  o  grupo  conserva-se  unido.  Quando  dizemos  que alguém está ‘no poder’, na realidade nos referimos ao fato de que ele foi empossado por um certo número de pessoas para agir em seu nome (ARENDT, 1969,  p.36 apud PERISSINOTO, 2004, p. 118)

O professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Paraná, Renato M. Perissinoto, em ensaio publicado na revista Lua Nova, em 2004, onde analisa como é tratado o poder em Arendt, encontra quatro aspectos característicos do poder, nessa definição citada acima: 
primeiro, o poder é um fenômeno do campo da ação humana; não é, portanto, uma “estrutura”, nem se iguala à posse de determinados recursos; segundo, o poder é um fenômeno do campo da “ação coletiva”; terceiro, o poder surge na medida em que um grupo se forma e desaparece quando ele se desintegra, o que reforça a  tese  de  que  o  poder  está  ligado  a  um  momento  de  fundação;  por  fim, ‘estar no poder’ significa ‘estar autorizado’ pelo grupo a falar em seu nome. (PERISSINOTO, 2004, p. 118)

Mas ao destrincharmos essa análise e ampliarmos o âmbito de ação do poder verificamos que ele não se limita à política e funciona como um motus continuum, desde o período primordial, em que um ser humano encontrou o outro, impulsionando-o a impor-se ao universo, incorporá-lo e fazê-lo à sua imagem e semelhança. Não é um desejo de destruição total do outro e muito menos de tornar-se único, é um desejo de exclusividade de seus desejos, como se dissesse: “eu quero o que desejo”. E deseja para que? Para satisfazer seus instintos e para ser desejado. Está incutida aí essa dualidade que persiste.
O Poder surge como uma instância que abrange e influencia esse campo de interação e que a todos pertence, mas que ninguém se apropria definitivamente; mostra-se como autoridade ou influência sobre o filtro pessoal de quem o detém, funcionando como um centro magnético para o qual todos concorrem. Freud afirmou, em Psicologia das Massas e análise do Eu, que “Na vida anímica individual aparece integrado sempre, efetivamente, ‘o outro’, como modelo, objeto, auxiliar ou adversário”.
Em Zigmunt Bauman encontramos o conceito que para este nivela a Liberdade em âmbito social,
Para uma pessoa ser livre tem de haver pelo menos duas. A liberdade pressupõe uma relação social, uma assimetria de condições sociais; essencialmente implica diferença social – presume e implica a presença de divisão social. Algumas podem ser livres somente na medida em que exista uma forma de dependência a que possam esperar fugir. Se ser livre significa poder ir seja para onde for  (...)  significa também que há pessoas que estão presas à sua casa (sic!) e a quem é negado o direito de se deslocarem livremente. (BAUMAN, 1989, p. 21-22)  

Pensamos o mesmo sobre o poder, o como essa assimetria está vinculada na relação instaurada entre objetos na concorrência pelo poder, onde o que determina os níveis de relação é a vontade, daquele que o detém, sobre o outro. Segundo Schopenhauer “A vontade é um princípio metafísico” (SCHOPENHAUER, 1985/1986, p. 150).
Ao existir o homem procura a agregação, é impulsionado a se socializar, mas é sempre um impulso egocêntrico, inclusive o seu desejo de ser social. Deseja a perfeição, com intuito de se desvencilhar da morte, mas abomina a solidão de um Deus. Deseja ser um sol, cujas vontades estão sempre a priori, mas que todos o admirem e dele dependa. Sabemos da concorrência que se instaura entre, aproximadamente, 360 milhões de espermatozóides para fecundar o óvulo no ato da concepção da vida e que o “vencedor” a prolonga durante toda ela, em relação social com outros indivíduos, incorporando o universo exterior; Jean Piaget também descreve esse movimento como egocêntrico, cujo objetivo é a manipulação, o controle, daquilo que lhe é externo (cf. PIAGET, 2005, p. 16).
O ideal seria que o instinto de sobrevivência preferisse a cooperação, porque justamente potencializaria seu objetivo, mas é a sobreposição de si em detrimento do outro que vem a priori. Segundo Hayakawa, então presidente do San Francisco State College, “os biólogos distinguem entre duas formas de ‘sobrevivência do mais apto’”. Há a luta entre as espécies, ou seja, o homem contra os insetos, o tigre contra o leão, etc. e há “a luta entre os elementos de uma mesma espécie como, por exemplo, a luta de ratos contra ratos e a de homens contra homens”. Ele afirma que a Biologia moderna traz provas de que, aquelas espécies onde a luta interna é acirrada, tornam-se inaptas para a competição com outras espécies, e chegam a ou quase extinção (cf. HAYAKAWA, 1977, p. 11). Esse movimento egocêntrico é sempre de si para si, mesmo que almeje cooperação. Só coopera porque isto o beneficia, e não dizemos isto com conotação negativa, porque esta contrariedade está no cerne da evolução. Kant, por exemplo, citado por Will Durant, diz:
Sem qualidades de natureza anti-social  (...)  os homens levariam a vida de pastor arcádico, em completa concórdia, contentamento e amor – mas, nesse caso suas aptidões permaneceriam ocultas e em germe. Agradecemos, portanto, por essa anti-sociabilidade, por essa invejosa emulação e vaidade, por essa insaciável ambição de riqueza e poder  (...)  o homem quer a concórdia, mas a natureza conhece melhor que ele o que convém à espécie; e ela quer a discórdia, para que o homem seja impelido a desenvolver esforços e aperfeiçoar suas aptidões naturais. (DURANT, 1956. P. 283)

Nietzsche em suas investigações genealógicas afirma que “não existe,  (...)   nem um agir não-egoísta, nem uma contemplação desinteressada; ambos são sublimações, nas quais o elemento fundamental, quase volatilizado, demonstra-se como existente apenas para a mais refinada observação”(apud GIACOIA JÚNIOR, 2000, p. 27). Giacoia Júnior ao comentar esse trecho afirma:
Dessa maneira, não somente desaparecem as antíteses entre pólos opostos, como também se dissolvem as entidades estáveis, as substâncias fixas e permanentes. O conjunto inteiro dos fenômenos, seja no domínio da natureza, seja no do espírito, constitui-se como um universo em constante transformação, um vir-a-ser (ou ‘devir’) (GIACOIA JÚNIOR, 2000, p. 27) 

Creio que ambos podem ser entendidos melhor na metáfora de Guimarães Rosa, em O Grande Sertão Veredas, sobre o bem e o mal:
Melhor, se arrepare: pois, num chão, e com igual formato de ramos e folhas, não dá a mandioca mansa, que se come comum, e a mandioca-brava, que mata? Agora, o senhor já viu uma estranhez? A mandioca-doce pode de repente virar azangada – motivos não sei; às vezes se diz que é por replantada no terreno sempre, com mudas seguidas, de manaíbas – vai em amargando, de tanto em tanto, de si mesma toma peçonha. E, ora veja: a outra, a mandioca-brava, também é que às vezes pode ficar mansa, a esmo, de se comer sem nenhum mal.  (...) 
Que o que gasta, vai gastando o diabo de dentro da gente, aos pouquinhos, é o razoável sofrer. E a alegria de amor – compadre meu Quelemém diz. Família. Deverás? É, e não é. O senhor ache e não ache. Tudo é e não é... Quase todo mais grave criminoso feroz, sempre é muito bom marido, bom filho, bom pai, e é bom amigo-de-seus-amigos! (Rosa, 1974, p. 11-12)

Todos desejam a paz, por exemplo, mas sob esse intuito esconde a culpa que deseja a paz para si, esta é sua vontade expressa, a paz para os outros é uma conseqüência deste desejo. Se desse desejo a paz vir também para os outros, ótimo! Se para obtiver a minha paz é preciso que eu lute também pela paz dos outros, ótimo! Vamos em frente! Querer para si é uma manifestação de sua vontade. Quem conseguiu o que tinha vontade, significa que sobrepujou a vontade de alguém, e se, sua vontade se sobrepôs sobre a de outrem, logo se criou aí o nivelamento assimétrico sobre o qual falávamos agora pouco em comparação com o conceito de liberdade “assimétrico” de Zigmunt Bauman. Significa dizer que ele tem influência ou coerção sobre o outro, o seu poder só existe nesta condição em relação ao outro, ou seja, tem poder sobre este e com relação a ele é livre, porque nada impele sua vontade. Por isso, todos querem a paz segundo seus interesses. Uma das propriedades do poder é a finitude da permanência, quem o detém não o detém para sempre, como dissemos. Portanto, é utópico o conceito de paz duradoura. Para que haja paz, seria preciso que alguém reinasse soberano por todo o Universo, para impor sua vontade sem contestação sobre o caos de vontades: para ordená-lo com sua única vontade. Mas observe que dissemos “impor” e “sobre”; isso sugere, figurativamente, uma panela tampada com água em ebulição, no cerne essa submissão almeja o poder. E esse motus egocêntrico nunca cessará, temos a história da civilização desde o homem paleolítico como exemplo. É o que Nietzsche chamou de “A vontade de Poder”.
Nietzsche cunhou esta expressão partindo da influência das idéias de Schopenhauer sobre a vontade – desenvolvidas no livro O mundo Como Vontade e Representação. Para Schopenhauer, “o universo não era a expressão do intelecto e da vontade de Deus, nem efeito de outra espécie racional. Para ele, a essência do universo é um impulso cego, denominado Vontade, ávida e  insaciável, eternamente em busca de satisfação” (GIACOIA JÚNIOR, 2000, p. 17). O impulso evolutivo que é próprio dos seres vivos tendo como motus essa Vontade descrita por Schopenhauer estaria estéril, porque a sua infinitude inconsciente em busca de satisfação o levaria teoricamente ao esvaziamento completo ou à destruição, como um canibal que fosse devorando a si mesmo, parte por parte, demovido pela culpa de assim fazer e movido pelo prazer de fazê-lo. A mesma sensação que se tem hoje no mundo contemporâneo da “indústria cultural”, descrita por Adorno e Horkheimer, no livro A dialética do Esclarescimento, de 1947: tudo é efêmero.
Nietzsche anunciava um niilismo integral em todas as resultantes da ação humana, para ele, em outras palavras, o controle tecno-científico – prometendo dominar a natureza e eliminar os limites do homem, o boom industrial exarcebado com a exploração de novos recursos, o acúmulo cultural histórico e a esperança da possibilidade de felicidade plena são falsos: a humanidade lançara-se dentro de um mito sisifistico moderno levada pelo instinto de satisfação, mas que nunca se satisfaria tornando-se presa de um ciclo de repetições e repetições históricas. Com isso, ele procurou reformular a idéia de Vontade, de Schopenhauer, a fim de encontrar uma saída evolutiva para o homem. Para ele o homem devia superar os instintos de sua condição animal para tomar as “rédeas” e fazer o seu próprio destino. Superar o último homem para o “além-do-homem”. 
Essa  perigosa  travessia  que  conduz  do  animal  ao  além-do-homem  só  pode  ser empreendida pelo homem moderno renunciando ao conformismo de sua mediocridade e  auto-satisfação.  Fixar  o  além-do-homem  como  alvo  de  sua  nostalgia  é  uma  tarefa  á  qual   a   humanidade   só   pode   ser   conduzida   por   intermédio   dos   dois   outros ensinamentos  de  Zaratustra:  a  vontade  de  poder  e  o  eterno  retomo.  Para  Nietzsche, Schopenhauer tivera razão quando identificou na Vontade o elemento fundamental em todo  o  universo.  Todavia,  do  ponto  de  vista  de  Nietzsche,  ela  não  pode  ser  pensada, como ainda o fizera Schopenhauer, como um ímpeto cego, desprovido de finalidade. Se é a Vontade que determina o surgimento e a transformação de todo estado de coisas do universo, tal Vontade possui uma qualidade fundamental: ela é vontade de poder. (GIACOIA JÚNIOR, 2000, p. 33)

Portanto, para Nietzsche, a vontade de poder, é o “propulsor” essencial da evolução.

 ‘Onde encontrei um ser viveu te, (sic!) lá encontrei vontade de poder. E este mistério segredou-me a própria vida:'Veja', disse ela,'eu sou aquela que sempre tem de superar a si mesma'.’  Essa  superação,  a  humanidade  a  realiza  por  meio  das  ‘tábuas  de  valor’,  que traçam o rumo para o trabalho civilizatório dos povos  (...) 
Para  que  o  homem  moderno  possa  ainda  criar  para  além  dele  mesmo, é necessário que se aproprie dessa natureza, ou seja, de sua vontade de poder. Somente desse modo poderá realizar aquilo que, por meio dele, constitui o fervoroso desejo da vida: superar-se a si mesmo, rompendo a camisa-de-força em que a encerrou a moderna civilização ocidental — a rigidez da autoconservação a qualquer custo. (apud GIACOIA JÚNIOR, 2000, p. 34)

Viemos encontrar o conceito Nietzschiano sobre a Vontade de Poder também em Adler, com a diferença que este via o poder como interesse social, ao contrário do outro que apenas visualizava uma perspectiva individual desse aspecto. Adler ampliou o significado “enfatizando o papel do crescimento e do desenvolvimento criativo” (FADIMAN & FRAGER, 2004, p. 123). Entretanto, não deixamos de enxergar aqui o poder em seu movimento Egocêntrico: a vida atraindo o indivíduo para evolução.
Em seus primeiros escritos, Adler enfatizou a importância da agressividade e da luta pelo poder. Contudo, ele não equiparava a agressividade à hostilidade, mas ao senso de iniciativa na superação de obstáculos  (...)  Adler afirmava que as tendências agressivas nos humanos foram cruciais na sobrevivência individual e na espécie. A raiz latina de agressividade pode manifestar-se no indivíduo como Vontade de poder (FADIMAN & FRAGER, 2004,  p. 125)

Em Adler a vontade de poder é utilizada como instrumento de superação de uma condição social, ou orgânica, inferior para uma superior, com vista em nivelar as relações dentro da sociedade é voltada para a cooperação entre as pessoas, no cerne prevalece a luta pela superioridade como uma competição compartilhada, onde a sociedade é a maior beneficiada em seu continuum de evolução. Adler via a criança como um ser com “sentimentos de fraqueza, inadequação e frustração” em meio ao mundo dos adultos. E como um impulso natural, uma condição essencial de sobrevivência e evolução, é necessário que ela se aventure, conheça esse mundo, para incorporá-lo e dominá-lo, só assim ela poderia ser livre, usufruir de sua vontade em detrimento das vontades adultas exercidas sobre si. “O esforço para obtenção de poder é a primeira compensação da criança para o senso de inferioridade.  (...)  um profundo senso de inferioridade impede o crescimento e o desenvolvimento positivo (FADIMAN & FRAGER, 2004, p. 124)” Para ficar mais claro o que dissemos, eis o que disse o próprio Adler:
Ela, a criança, percebe em tenra idade que existem outros seres humanos, que são capazes de satisfazer seus anseios mais plenamente e que estão melhor preparados para viver [...]  Ela aprende a supervalorizar o tamanho e a estatura que nos permitem abrir uma porta, ou a capacidade de mover objetos pesados, ou o direito dos outros de dar ordens e exigir obediência. O desejo de crescer, e de tornar-se tão ou mais forte do que os outros, surge em sua alma. (ADLER, 1928, p. 34 apud FADIMAN & FRAGER, 2004 , p. 125)

Como vimos, assim como Darwin, Adler vê a adaptação ao ambiente como a essência da vida, e afirma que é a vontade de poder o motivador fundamental para que essa adaptação ocorra. Este autor afirma ser inato, a todos os indivíduos saudáveis, o motus continuum de evoluir-se até à perfeição, sendo tanto em amplitude física quanto psicológica.
Jean Piaget, não fala de Vontade de poder, mas enxerga o desenvolvimento como resultante do processo de assimilação e adaptação do indivíduo para a sua conquista do meio externo; e para ele o que aciona o desenvolvimento é sempre o surgimento de uma necessidade do individuo, numa evolução constante. Ora, uma necessidade, é uma requisição para Eu: é o meu desejo de algo que preciso: “O encontro do objeto exterior desencadeará a necessidade de manipulá-lo  (...)  Uma palavra de alguém excitará a necessidade de imitar ou levará a reserva e oposição quando entra em conflito com nossas tendências. (grifo nosso)” (PIAGET, 2005, p. 16). Diz Piaget que ao segundo estágio de evolução o recém-nascido começa a ter “sentimentos elementares” agradáveis ou desagradáveis, de sucesso ou de fracasso, ligado a seu impulso de conquista do meio externo que não tem ainda “consciência das relações mantidas com as outras pessoas” e que leva “a uma espécie de egocentrismo geral, e dá a ilusão  (...)  de uma espécie de amor próprio e de uma atividade desse eu” (PIAGET, 2005, p. 23). Mas à frente esse autor ao descrever o estágio da primeira infância do desenvolvimento humano, inicio da socialização, reitera que da mesma forma que o recém-nascido age “a criança reagirá primeiramente às relações sociais e ao pensamento em formação com um egocentrismo inconsciente que prolonga o do bebê.” (PIAGET, 2005, p. 25). O egocentrismo tende a declinar nas idades posteriores. Mais tarde, entre os 7 e 12 anos, (e sendo referida aqui por aproximação semântica com egocentrismo) surge a vontade, segundo Piaget; cremos que esta experiência egocêntrica venha a marcar a psique e influenciar posteriormente o indivíduo a impor-se e incorporar, também, por meio da vontade, o meio externo.

A vontade não é, de nenhum modo, a própria energia a serviço desta ou daquela tendência. É uma regulação da energia, o que é bem diferente, e uma regulação que favorece certas tendências à custa de outras. Também, confunde-se, frequentemente, a vontade com o ato intencional (como na linguagem corrente quando se diz ‘você quer?’, no sentido de ‘você deseja?). Mas, como já mostraram W. James e Claparède, a vontade é inútil quando já existe uma intenção firme e única; e aparece, ao contrário, quando há conflitos de tendência ou de intenções, como quando, por exemplo, se oscila entre um prazer tentador e um dever. Mas, em que consiste a vontade? Neste conflito, ou em outro análogo, sempre há uma tendência inferior mais forte por si mesma (o prazer desejado, neste exemplo) e uma tendência superior, mas no momento mais frágil (o dever). O ato da vontade consiste, portanto, não em seguir a tendência inferior e forte (ao contrário fala-se, neste caso, de um fracasso da vontade ou de uma ‘vontade fraca’), mas em reforçar a tendência superior e frágil, fazendo-a triunfar.
O problema todo então é – e é problema de alto interesse para a psicologia do desenvolvimento mental, ao mesmo tempo que de alcance evidente no que se chama ‘educação da vontade’ – compreender como a tendência mais fraca no início da conduta (= a tendência superior, que se arrisca de ser vencida pelo desejo inferior) torna-se a mais forte, graças ao ato de vontade. (PIAGET, 2005, p. 56)

E chegamos aqui novamente a um conceito de vontade similar ao conceito definido por Schopenhauer, aquele impulso cego, e também ao conceito de vontade de poder elaborado por Nietzsche que se aproxima “de um domínio desse impulso”. O embate entre uma vontade oriunda dos resquícios filogenéticos dos instintos de sobrevivência e evolução e a vontade da consciência em exercer pleno domínio sobre o desconhecido. Tanto uma como a outra almeja que seus desejos sejam atendidos, subjugando qualquer desejo externo.    
    Freud negou que a Vontade de poder é que seria esse motivador da evolução da civilização, para ele o impulso principal de desenvolvimento do homem era de origem sexual. E não aceitava contestação. Mas o que é a civilização senão aquela quem criou os meios de produção, de riqueza e de consumo, os quais trazem cobiça do homem pelo homem, na qual os valores do ser são cada vez mais reprimidos: o homem é o que ele tem e  não o que é. Ao entrar na civilização o homem esquece o universo pelo qual ele está conectado, se perde, suprimi os sentidos, evidencia o Ego e passa a se orientar pela Vontade de Poder, que possui em si uma ambivalência que se governa, alternando entre um estado cujas raízes estão nesse mundo primitivo e sem culpa, que age por si, e outra faceta que age segundo a civilização e seus anseios.       

REFERÊNCIAS


BAUMAN, Zygmunt. Medo líquido. Trad. Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.


DALGALARRONDO, Paulo. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2008.


DIMENSTEIN, Gilberto. As armadilhas do poder: bastidores da imprensa. São Paulo: Summus, 1990.


DURANT Will; RANGEL, Godofredo; LOBATO, Monteiro. Historia da filosofia: vida e idéias dos grandes filósofos. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1956.


DOMENACH, Jean Marie. La propaganda Política. Buenos Aires: Editorial Universitária de Buenos Aires, 2001.


REGO, Francisco Gaudêncio Torquato do. Marketing político e governamental: um roteiro para campanha políticas e estratégias de comunicação. 6. ed. São Paulo: Summus, 1985.


FADIMAN, James; FRAGER, Robert. Personalidade e Crescimento Pessoal. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2004.


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