domingo, 31 de julho de 2011

CRIME PASSIONAL - CONTO

         
EPÍGRAFE

"O homem age como se fosse dono e superior à mulher, herança tradicional na história dessa relação."
                                                                 Sérgio Caldeira


"A mulher, agora emancipada, usufrui da sua condição de beleza e sedução, para satisfazer seu ego; em muitas relações conflituosas nota-se que o conflito se deu porque ela não soube usar com responsabilidade a liberdade que conquistou socialmente."
                                                                  Sérgio Caldeira 


"Tanto homem quanto mulher precisam refletir sobre direito e deveres dentro do âmbito de uma relação, a reflexão está muito áquem desse limite, estamos falando sobre ética, moral e crime."
                                                                 Sérgio Caldeira


“Quanto tempo passa entre a troca encantada de olhares e o momento que você repara nos defeitos do seu amor? Para o senso comum, a prova de fogo vem na "crise dos sete anos". Uma expressão popular nos Estados Unidos diz que após esse tempo, a coceirinha, a "seven year itch", começa a incomodar o casal. (...) Um levantamento feito em cerca de 10 mil residências nos EUA pela Universidade de Wisconsin encontrou um tempo de duração ainda menor do amor: três anos. É o mesmo tempo apontado em estudo patrocinado pelo estúdio Warner Brothers, feito com 2.000 adultos no Reino Unido.”
        Folha de São Paulo, Caderno Equilíbrio, 07 de junho de 2011.


“O Ligue 180, serviço da Secretaria Nacional de Política para as Mulheres, contabilizou em 2010 um aumento de 128% no total de denúncias de violência contra a mulher em relação ao registrado no ano anterior.”
     Folha de Minas Gerais, Caderno Brasil, 03 de Fevereiro de 2011.


CRIME PASSIONAL - TEXTO PRINCIPAL

Um casal de joão-de-barro chegou à Praça da árvore com os últimos dias do verão e trabalhou duro. Os hábeis arquitetos, em idas e vindas, trouxeram penas, garranchos, musgo, terra e até tufos de cabelos. Com os pequenos bicos e pés formaram uma massa pegajosa e impermeável de barro com a qual moldaram as paredes. Dentro de 10 dias a família já tinha uma oca grande, com dois compartimentos espaçosos, onde podiam se abrigar do vento e da chuva. Era uma obra sustentável, segura, com uma única entrada, do tamanho de uma bola de tênis.

A Praça era um bom quintal e integrava bem natureza e civilização. Formada estruturalmente de paineiras, ipês e poucas figueiras, dispostas em uma figura oval. As árvores foram plantadas muito perto uma das outras e em vez de competirem por espaço se abraçaram, ligando-se pelos galhos e pelas folhagens. Sob elas foram fabricados bancos de concreto onde se sentavam dezenas de pessoas durante o dia e durante a noite. Os transeuntes passeavam com freqüência pelos caminhos, espantando os pombos que procuravam migalhas. Era possível ver no alto a oca dos pequenos joões-de-barro, que ficava na base de um galho protegida pelo caule de uma frondosa paineira, mas era muito difícil perturbá-la. Os outros pássaros respeitavam o domínio do casal e dificilmente o incomodava. Era um lar perfeito para uma futura família feliz. Até mesmo antes de a casa ser construída esta felicidade já estava iminente. O macho envolvia a fêmea com o bico, como se a beijasse e ela lhe retribuía retirando-lhe os parasitas das penas. Voavam um atrás do outro como dois meninos brincando de pega-pega. Outras vezes ficavam a grunhir baixinho um com outro, tal dois velhinhos conversando sobre o passado.   

Desse amor nasceram dois filhos. Apenas dois ovinhos, mas que aos poucos foram modificando toda a rotina diária dos pais. À mamãe joão-de-barro coube aquecê-los, protegê-los contra a nocividade. Fazê-los sentirem-se amados e abençoados no mundo. Ao pai coube-lhe a responsabilidade geral pela família, foi encarregado de supri-la das faltas e defendê-la contra os predadores e intrusos. Por isso voava pelos arredores, voltando sempre, uma ou duas horas depois, com insetos ou pedaços de frutas. Enquanto os filhotes não vissem a luz do sol, cuidava apenas de alimentar à esposa, para que não se ausentasse de perto dos ovinhos.

Numa de suas saídas o papai joão-de-barro voltou mais rápido do que de costume, trazendo no bico um aflito e protéico bicho-de-pau-podre para sua querida senhora. Ao chegar próximo à sua casa teve que jogar fora o alimento e debater-se com uma andorinha que pousada no galho passara quase todo o corpo para o interior da oca. Murmurejava com a senhora joão-de-barro, que parecia não se importar. Os dois machos se digladiaram por alguns minutos, mas o joão-de-barro expulsou o outro com fúria. Olhou para trás a mamãe joão-de-barro continuava serena, aconchegada no segundo compartimento da oca. O senhor joão-de-barro voou e minutos depois voltou trazendo no bico: penas, musgo, garrancho e terra. Repetiu as idas e vindas por várias vezes até reunir o bastante. Misturou tudo com o bico e as pequenas patas.

Sem nenhum movimento de protesto fechou a única entrada da oca, com a senhora joão-de-barro e os seus filhotes lá dentro.

Depois sumiu no mundo e nunca mais se ouviu falar dele na Praça da árvore.

1 Comentários:

Blogger Inezteves disse...

Triste!

28 de dezembro de 2011 às 15:45  

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