sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Gerúndio

Ainda era noite, mas o amanhecer já se apressava. Não havia uma linha visível dividindo a escuridão da claridade, dizendo esse é x aquele é y. Sorrateiramente, a noite foi cedendo à luz opala que surgia com o prenúncio da alvorada. E o negro, foi descorando-se em matizes de cinza, chegando a um branco sujo, ao ponto, em que a noite e o dia fundiram-se em uma coisa só. A paisagem continuava a se mover lentamente. Mas isso não era fácil de se ver a olho nu, causando a impressão que tudo estava estático, e, no entanto, nada, nunca parou de se mover no universo.

Muito tempo antes de o dia clarear viam-se as luzes sendo acesas nas casas daqueles que precisavam sair antes que o sol nascesse; outros, não precisavam sair tão cedo assim. Beatriz levantara às cinco horas para fazer o café. Giusepe também estava acordado, mas não se levantou. Ele não entendia por que Beatriz levantava-se tão cedo se não tinham mais nada para fazer o dia todo.   

Giusepe deixava o dia acordar totalmente, até que os ruídos da manhã penetrassem pelas frestas da casa e viessem interromper seus pensamentos que se dispersavam no ar úmido de silêncio que a noite anterior deixava. Ele sabia muito bem, dali a pouco, o ronco do primeiro motor soará na rua principal, colocando a quietude da madrugada em segundo plano. Depois outro motor anônimo esticará seu grito, mantendo-se firme, até que o condutor, ainda sonolento, mude a marcha enquanto sobe a rua, depois outro motor, depois outros motores, até que os motores mais pesados dos coletivos predominarão sobre o trânsito. Os cães encadear-se-ão a latir os transeuntes que passarem para ir ao trabalho. O movimento dos carros, ao longe na BR 116, trará um murmúrio de ruídos apagados que se misturarão às vozes, aos latidos, aos inúmeros sons que farão o silêncio desaparecer totalmente pela manhã. A luz entrará pelas gretas da janela e os pios agradáveis dos pardais tornará insuportável ficar na cama. Ele ligará o rádio para ouvir as notícias, enquanto se lavasse. Depois se sentará à mesa e tomará o café. Terminará de escutar o noticiário na varanda, olhando fixamente a rua, até a hora em que resolvesse perambular pela vizinhança ou encontrar qualquer outra coisa para fazer. E a vida fora do seu eu retomasse a rotina já a sol claro, retrocedendo a luz às garras das florestas cerradas, ao oco das cavernas, recuando o silêncio para dentro dos homens onde permanecerá escondido em estado de reflexão até à noite seguinte, quando outra vez avançará sobre o dia. Preenchendo tudo em volta com esse silêncio imperial, calando a luz e libertando os seres noturnos.   

Lá fora o céu cinza, que se algodoara, pintara-se outra vez, agora de um azul cobalto, manchado por arquipélagos de nuvens brancas em aglutinação.  Um vento brando expulsou-as lentamente para o sul, enquanto outras nuvens mais brancas concentraram-se sobre o nascente como a massa sólida de um grande abacate branco, permanecendo assim por uns instantes. Aos poucos, de dentro das nuvens o sol foi sublinhando uma luz circular, como se o caroço do grande abacate figurativo se acendesse feito à auréola de uma lâmpada florescente e marcou-lhe no tecido externo um arco, que lentamente, colocara-se em movimento para o oeste até se transformar em uma bola de um branco mais intenso acentuando o horizonte irregular desenhado pelos tetos das casas que se estendiam sobre as costas do morro em que Giusepe e Beatriz moravam, parecido com o desenho de uma criança de três anos de idade.    
O sol agora já totalmente liberto das nuvens desprende-se também da encosta. A luz é intensa. Já não se pode olhá-lo a olho nu.  (Continua...)

Entre Muros

O primeiro muro é a dificuldade de fazer surgir aqui com palavras o muro tal como vejo.