segunda-feira, 22 de agosto de 2011

SÃO FRANCISCO DIZ QUE O DIABO NÃO EXISTE - CONTO

Quando o Brasil estava dominado pela ditadura a censura não permitia que quase nada fosse publicado. Em tudo os militares viam os tentáculos da subversão Bolchevista. Então os artistas para conseguirem passar pela censura, com críticas pesadas sobre o regime, produziam quase tudo disfarçado de uma arte que tinha a única função de entreter.  Fuçando os arquivos que ficaram sob o jugo militar daquele tempo, recentemente disponíveis para a consulta pública, descobri um texto que me parece o fragmento de uma peça escrito por um autor não identificado. E que achei muito interessante. Havia apenas a palavra "CENSURADO", grande, em diagonal, manuscrita com caneta picel vermelha e uma data em caneta esferográfica azul:"8 de dezembro de 1968" Era então vésperas do temido AI-5.

Esta data remete ao tempo em que morávamos em Osaco, meu pai era operário numa metalúrgica de eletrônicos e até então eu não entendia o motivo daquela tensão constante que os adultos viviam. Em frente a televisão eu, minha irmã zeza e mamãe torcíamos juntos para Maria Cristina ficar com Roberto Albuquerque em "A Grande Mentira", novela da 7, da rede globo. Às oito meu pai já havia chegado. Quando o Jornal começava tínhamos que ficar quieto. Tensão. Não podíamos comentar sequer alguma coisa: eu, zeza e mamãe. Eu não via nada de anormal.

O fragmento de peça de teatro de que estava falando, talvez uma cena só, remete metalinguisticamente a outra peça que se passa dentro da história e que está sendo ensaiada no teatro da Usp. Começa assim: Clara está sentada no canto do palco. Chega João Miguel vestido de São Francisco, fazendo carinho num pato de borracha. À medida em que João Miguel vai dizendo a sua fala vai tirando as vestes de São Francisco e se transformando no Diabo.

João Miguel - Dizem por aí que sou São Francisco (fala acariciando o pato). Que sou muito bom com os animais. Então eu aceito e confirmo: sou São Francisco como queiram. Gosto muito de ser chamado assim. Mas eu quero que entendam que eu muito me esforço para manter essa imagem e esse nome. A vida quando parece que é, não é, e quando temos a certeza que não é, aí é que é. As coisas às vezes sendo se transformam na frente dos nosso olhos para o não sendo. E no mesmo instante em que posso afirmar que isso é um pato (aponta para o pato de borracha) pode ser que ele deixe de ser um pato nesse exato momento. Quando digo pato pode ser que eu não esteja necessariamente dizendo animal de penas que vivem em lagos e em algumas cidades é caçado em temporadas pré-determinadas. (dá o pato a Clara) Pode ser que eu esteja querendo dizer outra coisa quando eu digo pato. Ou seja, homem sem penas, sem defesa, caçado em todas temporadas por jogadores compulsivos em cassinos argentinos. (João Miguel começa a tirar a fantasia de São Francisco e se transformar no Diabo) Pode ser que eu esteja irônico. E vocês mesmos pensem por si que eu não sou santo coissíma nenhuma, mas apenas um pato que se transformou num Santo para escapar de ser caçado e que possa ir engordar um honroso general de brigadas. Aquilo que vocês enxergam não é aquilos que vocês vêem. (A essa hora já está completamente transformado em Diabo) E se foi digo que não foi. Mas não pensem que de Santo só vivo a salvar patos, também em minha tarefa tenho a incumbência de salvar almas. E digo: não percam tempo com o Diabo, porque o Diabo não existe. Muita gente se benze quando o nome do cujo é dito. Eu não tenho essas preocupações. Diz um tal português Antero de Figueredo que ele existe. "Que ele é o tanso que apalerma; o carocho que sarna; o enguiço que tolhe; O azango que encanzina; o ozoneiro que engoda; o diacho que azaranza; o nico que nos aborrece; o careca que nos rala; o dianho que nos enreda; o tição negro que enfarrusca; a coisa má que ataranta; o caipira que conspira; Ele é o mafarrico; zé-bodelho; encourado; maldito; não-sei-que-diga; o desencaminhador; malasarte; porco sujo; cão tinhoso; o tisnado, zaparelho, o barzebu que nos corrompe" e adentra a dizer arcaísmos e neologismos para afirma que demônio existe. É uma ladainha que nos cansa. Pois digo, o tal não existe. O Diabo é folclore. Cuido dos animais, mas também cuido das almas. hahahahaahahahahahaah... Estou sempre vigilante. Sou santo e não careço de dormir. Todos vocês me reconhecem. Eu sou São Francisco. Quando seus olhos no espelho, refletem um pequeno brilho de ganância. Lá estou eu. Eu cuido das almas. Quando o ouro do poder os açoita a consciência entre o sim e o não. Lá estou eu. E parem com essa besteira de acusar o Diabo. O Diabo não existe. hahahahahahaahahah...
E o texto termina aí. Eu vi São Francisco se transformando no Diabo. Meu pai foi preso pelo vendedor de pipoca que há alguns dias havia começado a se fixar na minha rua, quando este se transformou medonhamente num personagem mostruoso à minha frente. Entrou chutando a porta de casa e levou meu paizinho. Lembro que enquanto reviravam a minha casa este homem-demônio olhava para mim. Eu tinha 8 anos. Seus olhos eram amarelo-vermelho vivo. Sua boca se transformou numa caverna com dentes enormes, pontiagudos, salientes. Salivava com fome de sangue. No tempo da ditadura muita coisa que diziam na verdade estavam querendo dizer outra coisa.  

A VONTADE DE PODER - ENSAIO

O que movimenta, que impulsiona, o homem para a disputa política? Encontramos em Wright Mills – citado por Hannah Arendt, em seu ensaio sobre a violência, de 1969 – uma frase sucinta que veio resumir o objeto dessa reflexão: “Toda política é uma luta pelo poder” (ARENDT, 1969,  p.31 apud PERISSINOTO, 2004, p. 116).  Com isso, nos veio uma outra pergunta: O que é esse objeto de disputa, o poder, quando ele passa a existir? Desta vez quem veio nos socorrer foi a própria Arendt, afirmando:
O poder nunca é propriedade de um indivíduo; pertence a um grupo e permanece em existência apenas na  medida  em  que  o  grupo  conserva-se  unido.  Quando  dizemos  que alguém está ‘no poder’, na realidade nos referimos ao fato de que ele foi empossado por um certo número de pessoas para agir em seu nome (ARENDT, 1969,  p.36 apud PERISSINOTO, 2004, p. 118)

O professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Paraná, Renato M. Perissinoto, em ensaio publicado na revista Lua Nova, em 2004, onde analisa como é tratado o poder em Arendt, encontra quatro aspectos característicos do poder, nessa definição citada acima: 
primeiro, o poder é um fenômeno do campo da ação humana; não é, portanto, uma “estrutura”, nem se iguala à posse de determinados recursos; segundo, o poder é um fenômeno do campo da “ação coletiva”; terceiro, o poder surge na medida em que um grupo se forma e desaparece quando ele se desintegra, o que reforça a  tese  de  que  o  poder  está  ligado  a  um  momento  de  fundação;  por  fim, ‘estar no poder’ significa ‘estar autorizado’ pelo grupo a falar em seu nome. (PERISSINOTO, 2004, p. 118)

Mas ao destrincharmos essa análise e ampliarmos o âmbito de ação do poder verificamos que ele não se limita à política e funciona como um motus continuum, desde o período primordial, em que um ser humano encontrou o outro, impulsionando-o a impor-se ao universo, incorporá-lo e fazê-lo à sua imagem e semelhança. Não é um desejo de destruição total do outro e muito menos de tornar-se único, é um desejo de exclusividade de seus desejos, como se dissesse: “eu quero o que desejo”. E deseja para que? Para satisfazer seus instintos e para ser desejado. Está incutida aí essa dualidade que persiste.
O Poder surge como uma instância que abrange e influencia esse campo de interação e que a todos pertence, mas que ninguém se apropria definitivamente; mostra-se como autoridade ou influência sobre o filtro pessoal de quem o detém, funcionando como um centro magnético para o qual todos concorrem. Freud afirmou, em Psicologia das Massas e análise do Eu, que “Na vida anímica individual aparece integrado sempre, efetivamente, ‘o outro’, como modelo, objeto, auxiliar ou adversário”.
Em Zigmunt Bauman encontramos o conceito que para este nivela a Liberdade em âmbito social,
Para uma pessoa ser livre tem de haver pelo menos duas. A liberdade pressupõe uma relação social, uma assimetria de condições sociais; essencialmente implica diferença social – presume e implica a presença de divisão social. Algumas podem ser livres somente na medida em que exista uma forma de dependência a que possam esperar fugir. Se ser livre significa poder ir seja para onde for  (...)  significa também que há pessoas que estão presas à sua casa (sic!) e a quem é negado o direito de se deslocarem livremente. (BAUMAN, 1989, p. 21-22)  

Pensamos o mesmo sobre o poder, o como essa assimetria está vinculada na relação instaurada entre objetos na concorrência pelo poder, onde o que determina os níveis de relação é a vontade, daquele que o detém, sobre o outro. Segundo Schopenhauer “A vontade é um princípio metafísico” (SCHOPENHAUER, 1985/1986, p. 150).
Ao existir o homem procura a agregação, é impulsionado a se socializar, mas é sempre um impulso egocêntrico, inclusive o seu desejo de ser social. Deseja a perfeição, com intuito de se desvencilhar da morte, mas abomina a solidão de um Deus. Deseja ser um sol, cujas vontades estão sempre a priori, mas que todos o admirem e dele dependa. Sabemos da concorrência que se instaura entre, aproximadamente, 360 milhões de espermatozóides para fecundar o óvulo no ato da concepção da vida e que o “vencedor” a prolonga durante toda ela, em relação social com outros indivíduos, incorporando o universo exterior; Jean Piaget também descreve esse movimento como egocêntrico, cujo objetivo é a manipulação, o controle, daquilo que lhe é externo (cf. PIAGET, 2005, p. 16).
O ideal seria que o instinto de sobrevivência preferisse a cooperação, porque justamente potencializaria seu objetivo, mas é a sobreposição de si em detrimento do outro que vem a priori. Segundo Hayakawa, então presidente do San Francisco State College, “os biólogos distinguem entre duas formas de ‘sobrevivência do mais apto’”. Há a luta entre as espécies, ou seja, o homem contra os insetos, o tigre contra o leão, etc. e há “a luta entre os elementos de uma mesma espécie como, por exemplo, a luta de ratos contra ratos e a de homens contra homens”. Ele afirma que a Biologia moderna traz provas de que, aquelas espécies onde a luta interna é acirrada, tornam-se inaptas para a competição com outras espécies, e chegam a ou quase extinção (cf. HAYAKAWA, 1977, p. 11). Esse movimento egocêntrico é sempre de si para si, mesmo que almeje cooperação. Só coopera porque isto o beneficia, e não dizemos isto com conotação negativa, porque esta contrariedade está no cerne da evolução. Kant, por exemplo, citado por Will Durant, diz:
Sem qualidades de natureza anti-social  (...)  os homens levariam a vida de pastor arcádico, em completa concórdia, contentamento e amor – mas, nesse caso suas aptidões permaneceriam ocultas e em germe. Agradecemos, portanto, por essa anti-sociabilidade, por essa invejosa emulação e vaidade, por essa insaciável ambição de riqueza e poder  (...)  o homem quer a concórdia, mas a natureza conhece melhor que ele o que convém à espécie; e ela quer a discórdia, para que o homem seja impelido a desenvolver esforços e aperfeiçoar suas aptidões naturais. (DURANT, 1956. P. 283)

Nietzsche em suas investigações genealógicas afirma que “não existe,  (...)   nem um agir não-egoísta, nem uma contemplação desinteressada; ambos são sublimações, nas quais o elemento fundamental, quase volatilizado, demonstra-se como existente apenas para a mais refinada observação”(apud GIACOIA JÚNIOR, 2000, p. 27). Giacoia Júnior ao comentar esse trecho afirma:
Dessa maneira, não somente desaparecem as antíteses entre pólos opostos, como também se dissolvem as entidades estáveis, as substâncias fixas e permanentes. O conjunto inteiro dos fenômenos, seja no domínio da natureza, seja no do espírito, constitui-se como um universo em constante transformação, um vir-a-ser (ou ‘devir’) (GIACOIA JÚNIOR, 2000, p. 27) 

Creio que ambos podem ser entendidos melhor na metáfora de Guimarães Rosa, em O Grande Sertão Veredas, sobre o bem e o mal:
Melhor, se arrepare: pois, num chão, e com igual formato de ramos e folhas, não dá a mandioca mansa, que se come comum, e a mandioca-brava, que mata? Agora, o senhor já viu uma estranhez? A mandioca-doce pode de repente virar azangada – motivos não sei; às vezes se diz que é por replantada no terreno sempre, com mudas seguidas, de manaíbas – vai em amargando, de tanto em tanto, de si mesma toma peçonha. E, ora veja: a outra, a mandioca-brava, também é que às vezes pode ficar mansa, a esmo, de se comer sem nenhum mal.  (...) 
Que o que gasta, vai gastando o diabo de dentro da gente, aos pouquinhos, é o razoável sofrer. E a alegria de amor – compadre meu Quelemém diz. Família. Deverás? É, e não é. O senhor ache e não ache. Tudo é e não é... Quase todo mais grave criminoso feroz, sempre é muito bom marido, bom filho, bom pai, e é bom amigo-de-seus-amigos! (Rosa, 1974, p. 11-12)

Todos desejam a paz, por exemplo, mas sob esse intuito esconde a culpa que deseja a paz para si, esta é sua vontade expressa, a paz para os outros é uma conseqüência deste desejo. Se desse desejo a paz vir também para os outros, ótimo! Se para obtiver a minha paz é preciso que eu lute também pela paz dos outros, ótimo! Vamos em frente! Querer para si é uma manifestação de sua vontade. Quem conseguiu o que tinha vontade, significa que sobrepujou a vontade de alguém, e se, sua vontade se sobrepôs sobre a de outrem, logo se criou aí o nivelamento assimétrico sobre o qual falávamos agora pouco em comparação com o conceito de liberdade “assimétrico” de Zigmunt Bauman. Significa dizer que ele tem influência ou coerção sobre o outro, o seu poder só existe nesta condição em relação ao outro, ou seja, tem poder sobre este e com relação a ele é livre, porque nada impele sua vontade. Por isso, todos querem a paz segundo seus interesses. Uma das propriedades do poder é a finitude da permanência, quem o detém não o detém para sempre, como dissemos. Portanto, é utópico o conceito de paz duradoura. Para que haja paz, seria preciso que alguém reinasse soberano por todo o Universo, para impor sua vontade sem contestação sobre o caos de vontades: para ordená-lo com sua única vontade. Mas observe que dissemos “impor” e “sobre”; isso sugere, figurativamente, uma panela tampada com água em ebulição, no cerne essa submissão almeja o poder. E esse motus egocêntrico nunca cessará, temos a história da civilização desde o homem paleolítico como exemplo. É o que Nietzsche chamou de “A vontade de Poder”.
Nietzsche cunhou esta expressão partindo da influência das idéias de Schopenhauer sobre a vontade – desenvolvidas no livro O mundo Como Vontade e Representação. Para Schopenhauer, “o universo não era a expressão do intelecto e da vontade de Deus, nem efeito de outra espécie racional. Para ele, a essência do universo é um impulso cego, denominado Vontade, ávida e  insaciável, eternamente em busca de satisfação” (GIACOIA JÚNIOR, 2000, p. 17). O impulso evolutivo que é próprio dos seres vivos tendo como motus essa Vontade descrita por Schopenhauer estaria estéril, porque a sua infinitude inconsciente em busca de satisfação o levaria teoricamente ao esvaziamento completo ou à destruição, como um canibal que fosse devorando a si mesmo, parte por parte, demovido pela culpa de assim fazer e movido pelo prazer de fazê-lo. A mesma sensação que se tem hoje no mundo contemporâneo da “indústria cultural”, descrita por Adorno e Horkheimer, no livro A dialética do Esclarescimento, de 1947: tudo é efêmero.
Nietzsche anunciava um niilismo integral em todas as resultantes da ação humana, para ele, em outras palavras, o controle tecno-científico – prometendo dominar a natureza e eliminar os limites do homem, o boom industrial exarcebado com a exploração de novos recursos, o acúmulo cultural histórico e a esperança da possibilidade de felicidade plena são falsos: a humanidade lançara-se dentro de um mito sisifistico moderno levada pelo instinto de satisfação, mas que nunca se satisfaria tornando-se presa de um ciclo de repetições e repetições históricas. Com isso, ele procurou reformular a idéia de Vontade, de Schopenhauer, a fim de encontrar uma saída evolutiva para o homem. Para ele o homem devia superar os instintos de sua condição animal para tomar as “rédeas” e fazer o seu próprio destino. Superar o último homem para o “além-do-homem”. 
Essa  perigosa  travessia  que  conduz  do  animal  ao  além-do-homem  só  pode  ser empreendida pelo homem moderno renunciando ao conformismo de sua mediocridade e  auto-satisfação.  Fixar  o  além-do-homem  como  alvo  de  sua  nostalgia  é  uma  tarefa  á  qual   a   humanidade   só   pode   ser   conduzida   por   intermédio   dos   dois   outros ensinamentos  de  Zaratustra:  a  vontade  de  poder  e  o  eterno  retomo.  Para  Nietzsche, Schopenhauer tivera razão quando identificou na Vontade o elemento fundamental em todo  o  universo.  Todavia,  do  ponto  de  vista  de  Nietzsche,  ela  não  pode  ser  pensada, como ainda o fizera Schopenhauer, como um ímpeto cego, desprovido de finalidade. Se é a Vontade que determina o surgimento e a transformação de todo estado de coisas do universo, tal Vontade possui uma qualidade fundamental: ela é vontade de poder. (GIACOIA JÚNIOR, 2000, p. 33)

Portanto, para Nietzsche, a vontade de poder, é o “propulsor” essencial da evolução.

 ‘Onde encontrei um ser viveu te, (sic!) lá encontrei vontade de poder. E este mistério segredou-me a própria vida:'Veja', disse ela,'eu sou aquela que sempre tem de superar a si mesma'.’  Essa  superação,  a  humanidade  a  realiza  por  meio  das  ‘tábuas  de  valor’,  que traçam o rumo para o trabalho civilizatório dos povos  (...) 
Para  que  o  homem  moderno  possa  ainda  criar  para  além  dele  mesmo, é necessário que se aproprie dessa natureza, ou seja, de sua vontade de poder. Somente desse modo poderá realizar aquilo que, por meio dele, constitui o fervoroso desejo da vida: superar-se a si mesmo, rompendo a camisa-de-força em que a encerrou a moderna civilização ocidental — a rigidez da autoconservação a qualquer custo. (apud GIACOIA JÚNIOR, 2000, p. 34)

Viemos encontrar o conceito Nietzschiano sobre a Vontade de Poder também em Adler, com a diferença que este via o poder como interesse social, ao contrário do outro que apenas visualizava uma perspectiva individual desse aspecto. Adler ampliou o significado “enfatizando o papel do crescimento e do desenvolvimento criativo” (FADIMAN & FRAGER, 2004, p. 123). Entretanto, não deixamos de enxergar aqui o poder em seu movimento Egocêntrico: a vida atraindo o indivíduo para evolução.
Em seus primeiros escritos, Adler enfatizou a importância da agressividade e da luta pelo poder. Contudo, ele não equiparava a agressividade à hostilidade, mas ao senso de iniciativa na superação de obstáculos  (...)  Adler afirmava que as tendências agressivas nos humanos foram cruciais na sobrevivência individual e na espécie. A raiz latina de agressividade pode manifestar-se no indivíduo como Vontade de poder (FADIMAN & FRAGER, 2004,  p. 125)

Em Adler a vontade de poder é utilizada como instrumento de superação de uma condição social, ou orgânica, inferior para uma superior, com vista em nivelar as relações dentro da sociedade é voltada para a cooperação entre as pessoas, no cerne prevalece a luta pela superioridade como uma competição compartilhada, onde a sociedade é a maior beneficiada em seu continuum de evolução. Adler via a criança como um ser com “sentimentos de fraqueza, inadequação e frustração” em meio ao mundo dos adultos. E como um impulso natural, uma condição essencial de sobrevivência e evolução, é necessário que ela se aventure, conheça esse mundo, para incorporá-lo e dominá-lo, só assim ela poderia ser livre, usufruir de sua vontade em detrimento das vontades adultas exercidas sobre si. “O esforço para obtenção de poder é a primeira compensação da criança para o senso de inferioridade.  (...)  um profundo senso de inferioridade impede o crescimento e o desenvolvimento positivo (FADIMAN & FRAGER, 2004, p. 124)” Para ficar mais claro o que dissemos, eis o que disse o próprio Adler:
Ela, a criança, percebe em tenra idade que existem outros seres humanos, que são capazes de satisfazer seus anseios mais plenamente e que estão melhor preparados para viver [...]  Ela aprende a supervalorizar o tamanho e a estatura que nos permitem abrir uma porta, ou a capacidade de mover objetos pesados, ou o direito dos outros de dar ordens e exigir obediência. O desejo de crescer, e de tornar-se tão ou mais forte do que os outros, surge em sua alma. (ADLER, 1928, p. 34 apud FADIMAN & FRAGER, 2004 , p. 125)

Como vimos, assim como Darwin, Adler vê a adaptação ao ambiente como a essência da vida, e afirma que é a vontade de poder o motivador fundamental para que essa adaptação ocorra. Este autor afirma ser inato, a todos os indivíduos saudáveis, o motus continuum de evoluir-se até à perfeição, sendo tanto em amplitude física quanto psicológica.
Jean Piaget, não fala de Vontade de poder, mas enxerga o desenvolvimento como resultante do processo de assimilação e adaptação do indivíduo para a sua conquista do meio externo; e para ele o que aciona o desenvolvimento é sempre o surgimento de uma necessidade do individuo, numa evolução constante. Ora, uma necessidade, é uma requisição para Eu: é o meu desejo de algo que preciso: “O encontro do objeto exterior desencadeará a necessidade de manipulá-lo  (...)  Uma palavra de alguém excitará a necessidade de imitar ou levará a reserva e oposição quando entra em conflito com nossas tendências. (grifo nosso)” (PIAGET, 2005, p. 16). Diz Piaget que ao segundo estágio de evolução o recém-nascido começa a ter “sentimentos elementares” agradáveis ou desagradáveis, de sucesso ou de fracasso, ligado a seu impulso de conquista do meio externo que não tem ainda “consciência das relações mantidas com as outras pessoas” e que leva “a uma espécie de egocentrismo geral, e dá a ilusão  (...)  de uma espécie de amor próprio e de uma atividade desse eu” (PIAGET, 2005, p. 23). Mas à frente esse autor ao descrever o estágio da primeira infância do desenvolvimento humano, inicio da socialização, reitera que da mesma forma que o recém-nascido age “a criança reagirá primeiramente às relações sociais e ao pensamento em formação com um egocentrismo inconsciente que prolonga o do bebê.” (PIAGET, 2005, p. 25). O egocentrismo tende a declinar nas idades posteriores. Mais tarde, entre os 7 e 12 anos, (e sendo referida aqui por aproximação semântica com egocentrismo) surge a vontade, segundo Piaget; cremos que esta experiência egocêntrica venha a marcar a psique e influenciar posteriormente o indivíduo a impor-se e incorporar, também, por meio da vontade, o meio externo.

A vontade não é, de nenhum modo, a própria energia a serviço desta ou daquela tendência. É uma regulação da energia, o que é bem diferente, e uma regulação que favorece certas tendências à custa de outras. Também, confunde-se, frequentemente, a vontade com o ato intencional (como na linguagem corrente quando se diz ‘você quer?’, no sentido de ‘você deseja?). Mas, como já mostraram W. James e Claparède, a vontade é inútil quando já existe uma intenção firme e única; e aparece, ao contrário, quando há conflitos de tendência ou de intenções, como quando, por exemplo, se oscila entre um prazer tentador e um dever. Mas, em que consiste a vontade? Neste conflito, ou em outro análogo, sempre há uma tendência inferior mais forte por si mesma (o prazer desejado, neste exemplo) e uma tendência superior, mas no momento mais frágil (o dever). O ato da vontade consiste, portanto, não em seguir a tendência inferior e forte (ao contrário fala-se, neste caso, de um fracasso da vontade ou de uma ‘vontade fraca’), mas em reforçar a tendência superior e frágil, fazendo-a triunfar.
O problema todo então é – e é problema de alto interesse para a psicologia do desenvolvimento mental, ao mesmo tempo que de alcance evidente no que se chama ‘educação da vontade’ – compreender como a tendência mais fraca no início da conduta (= a tendência superior, que se arrisca de ser vencida pelo desejo inferior) torna-se a mais forte, graças ao ato de vontade. (PIAGET, 2005, p. 56)

E chegamos aqui novamente a um conceito de vontade similar ao conceito definido por Schopenhauer, aquele impulso cego, e também ao conceito de vontade de poder elaborado por Nietzsche que se aproxima “de um domínio desse impulso”. O embate entre uma vontade oriunda dos resquícios filogenéticos dos instintos de sobrevivência e evolução e a vontade da consciência em exercer pleno domínio sobre o desconhecido. Tanto uma como a outra almeja que seus desejos sejam atendidos, subjugando qualquer desejo externo.    
    Freud negou que a Vontade de poder é que seria esse motivador da evolução da civilização, para ele o impulso principal de desenvolvimento do homem era de origem sexual. E não aceitava contestação. Mas o que é a civilização senão aquela quem criou os meios de produção, de riqueza e de consumo, os quais trazem cobiça do homem pelo homem, na qual os valores do ser são cada vez mais reprimidos: o homem é o que ele tem e  não o que é. Ao entrar na civilização o homem esquece o universo pelo qual ele está conectado, se perde, suprimi os sentidos, evidencia o Ego e passa a se orientar pela Vontade de Poder, que possui em si uma ambivalência que se governa, alternando entre um estado cujas raízes estão nesse mundo primitivo e sem culpa, que age por si, e outra faceta que age segundo a civilização e seus anseios.       

REFERÊNCIAS


BAUMAN, Zygmunt. Medo líquido. Trad. Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.


DALGALARRONDO, Paulo. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2008.


DIMENSTEIN, Gilberto. As armadilhas do poder: bastidores da imprensa. São Paulo: Summus, 1990.


DURANT Will; RANGEL, Godofredo; LOBATO, Monteiro. Historia da filosofia: vida e idéias dos grandes filósofos. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1956.


DOMENACH, Jean Marie. La propaganda Política. Buenos Aires: Editorial Universitária de Buenos Aires, 2001.


REGO, Francisco Gaudêncio Torquato do. Marketing político e governamental: um roteiro para campanha políticas e estratégias de comunicação. 6. ed. São Paulo: Summus, 1985.


FADIMAN, James; FRAGER, Robert. Personalidade e Crescimento Pessoal. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2004.


FREUD, Sigmund. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira. Psicologia de Grupo e a Análise do Ego (1921). Rio de Janeiro: Imago, 1996.


GIANCOIA JÚNIOR, Oswaldo. Nietzsche. São Paulo: Publifolha, 2000.


GRINBERG, Luiz Paulo. Jung: o homem criativo. São Paulo: FTD, 1997.


HAYAKAWA, S. I. A linguagem no pensamento e na ação. Trad. Jane A. Perticarati. 3. ed. São Paulo: Pioneira, 1977.


NEUMANN, Erich. História da Origem da Consciência. Trad. Margit Martincic. 4. ed. São Paulo: Cultrix, 2006.


OLIVEIRA, Dayse de Marie; CRUZ, Maria Helena Simão. Sobre a Psicologia de Massas do Fascismo de W. Reich. Revista Psicologia e Saúde. Rio de Janeiro, p. 70-76, jan. 2009.


OLIVEIRA, Ivan Carlos Andrade de. Teorias da Comunicação. Minas Gerais: Virtual Books, 2003.


PERISSINOTO, Renato M. Hannah Arendt, Poder e a Crítica da Tradição. Lua Nova. São Paulo, n. 61, p. 115-138.  2004.


PIAGET, Jean. Seis Estudos de Psicologia. Trad. Maria Alice Magalhães. 24. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2005.


RANDAZZO, Sal. A Criação de Mitos na Publicidade: como publicitários usam o poder do mito e do simbolismo para criar marcas de sucesso. Trad. Mario Fondelli. Rio de Janeiro: Rocco, 1996.


SCHOPENHAUER, Arthur. O livre Arbítrio. Minas Gerais: Novo Horizonte, v. III, 1985/1986.

domingo, 14 de agosto de 2011

A PEQUENA PUTA EM FLOR - CONTO

Seu nome? Valéria. Cristina. Maria. Eloísa. Kely. Adriane. Uma vez foi Sabatine para um milionário portenho, velho, gordo, cheirando a incenso que imaginava a mulher que o largara em 1950. Também atendia por "pequena": semente de seixos, ornada pelas palavras mais belas e também as mais chulas que os estivadores, marinheiros, turistas, todos os tipos de homens que frequentavam o cais lhe davam.

Nesse tempo era o que lhe repetiam nos becos. As donas dos maridos e as mães formavam-lhe a petulância de querer não se rebaixar a ninguém quando contumaz lhe diziam: "pequena puta em flor". Com isso, não mudava, ao contrário, vestia shorts jeans, minissaia mostrando sempre a calcinha branca ou amarelinha. Enrubescia-se com a maquiagem da tia e não dava conversa a ninguém.

Com o tempo a petulância passou a ser um gosto, o tempo em que realmente deixou de ser virgem. Que pela primeira vez fez a virilidade de um homem dobrar-se no meio das suas pernas. Depois, o decartou como se nunca o tivesse conhecido. Anos mais tarde quando ela já era a rainha do submundo, esse mesmo homem pagou-lhe o contrato de 50 dólares, depois se enforcou no andaime de um prédio em construção, ele deveria ter outras frustrações, mas parecera que fora envenenado pelo gosto da primeira colheita. Pagar era o único jeito de amá-la.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

CONCEIÇÃO DE JACUÍPE - CONTO

Estive hoje em Conceição de Jacuípe pelo Google Earth– prefiro esse nome ao outro. É uma cidade que surge nos descampados da Bahia, se agrupando em casas, como arbustos de um deserto com receio de se perderem só, como algumas perdidas que ficaram pelo caminho aqui e ali, ao lado das imensas avenidas que parecem túneis que ligam a realidade à dimensão da fantasia.  Posso vê-la, você e sua bicicleta voltando à infância de Jacuípe, aquela menininha desbravadora de arredores, seguida por seu cão preto e branco que late com ares de importância os vestígios de animais que encontram pelo caminho. Um lagarto se esgueira por uma pedra ao longe.

Chegamos à cidade e podemos ver o Hotel Ideal com seu letreiro espalhafatoso a se proclamar: “Hotel Ideal: O melhor hotel de Conceição de Jacuípe”. Quando dona Laura se sentava na varanda da antiga casa velha da rua do Louro, ela era que podia ver os poucos hóspedes chegarem com seus ares de cidadão do mundo e se apaixonar por Jacuípe. Deposto a arrogância, comum a todos que vivem nas babilônias modernas com seus arranha-céus de ganância, Ela percebia aqueles seres de pedra e vidro descobrirem o mundo maravilhoso da cidade, e suas fantasias afloravam. Ali em plena Jacuípe, ela já vira engenheiro com MBA formado em Havard transformar-se em personagem de ficção, com poderes especiais, humildade e heroísmo, arrebatador de corações e vivente de aventuras incríveis sobre seu cavalo negro pelo sertão dos brasis. Homem virava menino. Homem virava lobisomen. Tudo dona Laura viu e contou e recontou de cor, com os olhos brilhantes, como se os visse novamente surgir de páginas folheadas pelo vento sobre a história de Jacuípe.

Demos uma passada pelo banho da Catarina. Que não necessariamente é um rio. Pela rua das bromélias, pela feira e desembocamos até a rua “nem sempre tem céu azul”. Essa é uma verdade. Ás vezes olhamos para o céu e imaginamos Deus naquela estrela brilhando, Mas na verdade, Deus pode estar mesmo é no toldo negro que cerca a estrela, obscuro mistério da Criação de onde surgiu a humanidade, toda espécie de estrela e de coisas vivas e inanimadas. E prosseguimos pela cidade até pegarmos novamente a BR 324. Você em sua bicicleta metamorfoseando novamente de menina em mulher e eu vou acompanhando tudo  pelo satélite, tão longe e tão perto um do outro.

Passamos novamente pela varanda de dona Laura, anciã de 300 anos, para lhe dar-lhe nosso momentâneo adeus. Chamamos e ela surge no umbral da porta grande de Jacarandá, tão antiga quanto ela, com suas cãs alvas, moldada em tranças longas cujo contraste com a pele cabocla lhe davam o semblante do tempo, andando vagarosamente sobre as alpercatas, como se viesse do começo dos tempos. Paramos a olhá-la. E só então vimos que ela trazia pelas mãos Júlia e Laurinha gêmeas idênticas, de súbito olhamos sobressaltado porque ouvimos um barulho vindo da casa, Dona Laura, olhou para você e sorriu. Então surge Miguel correndo, já ia sair para brincar na rua. Mas olha para você e estanca. Dona Laura ri novamente e você se põe a pedalar eu te sigo. Você traz um pensamento que aguarda a iminência de descobrir algo importante, que agora não sabe explicar, mas lá está, aquilo que te leva incomodando. Lá ficaram aquelas quatro figuras em pé, olhando você se afastar rapidamente, confortados, porque sabem que você não foi embora. Três anos depois nos casamos e, então, os meninos nasceram.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

O INCRÍVEL CÃO PASTOR QUE CHEGOU A SENADOR DA REPÚBLICA - CONTO

Há uma parte oculta na realidade que escapa à enciclopédia da Ciência e ainda não consta nos artigos do gênero humano. Este poderia ser um discurso evasivo da imaginação, que estivesse vazia de histórias. Mas não é esse o caso porque de fato às vezes nos surpreendemos com acontecimentos extraordinários. É um caso de espanto público; por isso achamos de vos precaver sobre coisas que são difíceis de explicar, caro leitor. Desarme-se um pouco da lógica, mesmo nesse reino de fantasia, pois sabemos que é difícil de acreditar, onde já se viu? Um Cão Pastor chegar a Senador da República!

Ouviram bem: “Cão Pastor”; “Senador da República!”. Há poucos dias José Brasil da Anunciação, concorrente de um partido opositor receberá de seu assessor o convite para participar da festa da posse desse nosso Senador, com sonoras palavras de indignação: “foi invejavelmente vitorioso nas urnas, alcançando a maioria dos votos legítimos”.    

José Brasil da Anunciação estava às vésperas da velhice. Era um homem de caráter magnífico. Irrepreensível. Obstinado. Já há muitas décadas concorria ao cargo público. Desde que viera para São Paulo, em 1960, morar no Jardim Ângela, tentar cumprir a sina que sua mãe determinara no dia em que ele nasceu. Contam nos bastidores da política que sua mãe bebeu por toda a vida, até mesmo na gravidez de José Brasil e que ele mesmo nascera num bar em Alhandra, município da Paraíba. Quando o pequenino José sentiu o primeiro hálito de pinga e ouviu os primeiros palavrões que sua mãe gritava àqueles que a acudia, chorou mais alto de que qualquer ruído que havia naquele pequeno mundo e sua mãe num raro momento de consciência e lucidez compadeceu-se do pequeno e falou com voz cadente:” Nasceu aquele que vai dá jeito nesse Brasil de meu Deus!”

Tantas vezes fora derrotado nas urnas, mas nunca desistiu. Esse senhor, quando jovem, predisposto a granjear melhorias para o mundo, formulou um caderno volumoso de idéias, nascidas com êxtase nos sonhos. Preocupado com o país, correu estradas, às vezes de carona, discutindo com toda gente influente do meio político, expondo-o ao povo em praças públicas, mostrando aqui e lá com uma energia que lhe inflamava os olhos. Tentava convencer os ricos que a melhor solução para o país era igualar as classes e pedia a estes que dessem a décima parte de seus rendimentos aos pobres. Implorou as universidades que ouvissem as grandes soluções que ele propunha. Entretanto com o seu esforço nunca conseguiu convencer ninguém de que estava certo e este foi um dos motivos que o fez fundar seu próprio partido, candidatar-se a vereador e depois a Senador da República. No começo foi visto pelos demais da política como um homem perigoso, mas depois o próprio meio insistente e espalhafatoso com que empregava a política foi tornando-o um sujeito desacreditado e alvo de chacotas. Desde então veio se candidatando até perder esta eleição para o novo Senador para qual foi convidado para a festa de posse, como foi dito.

E foi José Brasil à festa de posse. Estava recomposto da derrota, sempre foi um homem que depositava grande sapiência ao desejo do povo e, por outro lado, pretendia manter-se próximo às figuras no poder. Era um acesso por onde podia disseminar as suas idéias. O Senador eleito estava faustoso, rodeado de gente. O povo convidado sequer observava o seu novo representante agradecer-lhe a confiança com acenos de rabo, que é o sorriso dos cachorros. O Senador ia bem. Metido num fraque preto, gravata borboleta, camisa lisa de cor branca, enfeitado por uma cartola feia, perfeitamente escolhida para tampar-lhe as orelhas pontudas e curtas. Ao traço da fina figura acrescentava-se ainda uma bengala sem função, um par de botas de montar e uns óculos transparentes, circular, encaixado na ponta do nariz comprido. Sabe-se muito pouco do passado desse nosso Senador. Apenas que vem de família muito rica, antiqüíssima, oriunda à corte de Dom João VI, e que há muito tempo habita os bastidores de Brasília. No conjunto é um sujeito carismático. Comporta-se muito bem em duas pernas, melhor que muitos homens em quatro. Contudo, está vestido com a elegância que o cargo merece, mas nos parece muito antiquado, passou despercebido pelos olhos da imprensa.

Parecia que todos estavam hipnotizados. José Brasil da Anunciação pretendia ficar pouco e assim que chegou ao Senado tratou logo de seguir ao salão de festas da casa a fim de cumprimentar o novo Senador. Mas logo que viu todos rodeando o Cão Pastor como Senador da República indignou-se tremendamente, persignando-se. Sentiu um arrepio no corpo e percebeu logo que ali havia peripécias do Diabo. Era um homem religioso e de imediato percebeu que o dito cujo havia enviado ao Senado brasileiro um anticristo, para requisitar ao inferno a alma de todo o povo. Previu a cobiça, o egoísmo, o fim da paz, da cordialidade e da obediência a Deus.

Apavorou-se com o encanto do tal Senador. E, novamente, persignou-se em frente a uma estátua de Nossa Senhora e rezou uma Ave Maria. Só ele via o que via. As outras pessoas rodeavam o Cão Pastor com um interesse sobrenatural e a impressa já noticiava, antecipadamente, a possível eleição deste para a presidência do Senado, sem desconfiar que lidassem com uma prosopopéia. José tumultuou o evento até que o levaram à enfermaria da casa para que se acalmasse. Mas nada o acalmava e ele, aos gritos, tentava convencer a todos que aquele senhor garboso se tratava do Diabo.

Mas não há homem só que possa lidar com uma multidão contrária sem perspicácia, calma e inteligência. José foi se acalmando até começar novamente a pensar. E dizia consigo: “calma José, calma José, você pode provar o que vê, mas precisa muito de Deus e paciência. Você há de expulsar o demônio”. Ministraram-lhe um calmante e ele dormiu por horas, o tempo necessário para que a imprensa esquecesse o episódio, a festa terminasse e ele voltasse para casa.

José sempre foi um homem religioso, mas a partir daí se apegou mais ainda à religião. Levantava-se às quatro da manhã e jejuava todos os dias até as cinco da tarde. Não se separava mais da bíblia, se acercou de santos e crucifixos.   

Como cogitado, o Senador Cão Pastor logo se tornou o líder do Senado, mais que isto, o elo entre os partidos concorrentes, fazendo-se um hábil mediador de interesses. Adquiriu inúmeros amigos. Coisa de quem nasceu quedado por carinho no pêlo. Utilizava-se da manhosa estratégia de permanecer invisível, longe dos conflitos. Desde a posse veio trabalhando muito. Não foi candidato de prometer, mas com que velocidade vem sendo espalhadas as faças do seu mandato. Sem demora propôs a Emenda Canina a qual dava direito a biscoito de carne grátis a todos os cães dos familiares de funcionários do Senado, sem que ninguém do povo percebesse que ele estava privilegiando apenas uma classe: os cães. Todos estavam fascinados pelo Senador. Cada projeto que submetia à votação do plenário calculava um verborrágico discurso, carregado em retórica de palavras emocionais. Citava autores, a responsabilidade da representação pública e contagiava a platéia com a concisão e eloqüência de Rui Barbosa, enfeitiçando a todos. O Senado se altercava com as propostas de seu presidente. Estava eufórico. A influência do Cão Pastor contaminou a todos: a cantina, as reuniões às portas fechadas, os jantares nas casas dos parlamentares, colimando em uma possível candidatura do Senador à Presidência da República nas próximas eleições.

“Persuasão demoníaca” Era o que pensava José Brasil quando lia os jornais. Ele rondava o Senado à espreita, com a intenção de exorcizá-lo. Os corredores vazios faziam-no se arrepiar. Sentia a presença pesada do demônio e ouvia gargalhadas atrás de si. Tinha muito medo, mesmo assim o enfrentava. Noites e dias passavam para ele rapidamente, sem que percebesse. O cansaço o enfraquecera, abrindo caminho para os torpores mentais. A cabeça ficava pesada de tanto pensar e rezar. Era como se o tempo assomasse seu passado de luta nesse único episódio e resumisse o fracasso de sua vida numa dose diária. O homem estava sobre enorme pressão. E essa pressão cobrava-lhe urgência, ação. Embora aturdido não iria desistir. Tentou a igreja, os jornais, as autoridades estrangeiras, mas ninguém quisera dar-lhe crédito. Corria histórias a seu respeito em Brasília. E aquela sua vida enérgica pela política foi considerada excêntrica pelos jornais. Muitos publicaram insinuações de loucura, de neurônios afetados pelo alcoolismo de sua mãe. Os poucos amigos e correligionários tratavam-no com delicadezas, escolhendo palavras que não lhe afetassem, mas as conversas sempre versavam para o tal Senador-demônio.

José vigiava o Senador Cão Pastor em todas as sessões do Senado. Num dia desses, perdera a convicção de que este era o demônio e entrou por outra convicção que viera extenuá-lo tanto quanto a outra. O Senador estava sentado no Hall do Senado, no intervalo de uma reunião. Lia despreocupadamente o jornal. José, sentado no sofá em frente, rezando baixinho, aguardava um momento propício para lhe jogar água-benta, quando o Cão Pastor cruzou a perna de um lado para outro, deixando aparecer uma macha branca que tinha no interior da coxa direita. José se sobressaltou, quase não acreditando. Mas teve certeza, quando o Cão Pastor descruzou as pernas. “Mas vira-lata sem-vergonha! Maldito! Espera aí que eu já mostro quem é você!”, levantou-se imediatamente batendo com uma pasta de documentos nas costas do Senador, que assustado saiu correndo pelo corredor. Os seguranças bloquearam José, tratando-o com respeito. Mas ele não se continha e gritava: “Esse aí não é Senador coisa nenhuma, é meu cachorro, bicho ladrão. Bem que vi a semelhança. Esse aí eu expulsei de casa a vassouradas.” E tentou explicar aos seguranças e ao povo que estava em volta da confusão que aquele era o seu antigo cachorro, de nome pingüim, por causa das manchas brancas, um tremendo ladrãozinho de carne. Por várias vezes foi pego roubando as carnes que José deixava descongelar sobre a pia e que por isso mesmo foi posto na rua.

A história do demônio estava esquecida e José Brasil agora se comia de raiva, porque achava que a gente brasileira deixava se enganar por tudo, até mesmo por um vira-lata como o pingüim. Em detrimento a tal falta escreveu por ironia ao Reitor da Universidade de São Paulo, pedindo que aumentasse as vagas de oftalmologista, sabia que ia chegar aos jornais, disse ele: “... Pois o caso aqui no Brasil é grave, estando errada a expressão que tantos jornais andaram difundindo; o Brasil é um país de cegos e não de banguelas.” 

Enquanto isso o Senador Cão Pastor ganhava mais prestígio, era uma celebridade blindada e cada vez menos podia ser atingida. Mas ao conhecer melhor seu inimigo José sabia que cedo ou tarde podia revelar essa farsa. Então astuciou que este jamais conseguiria resistir a carne crua. Comprou dois quilos de salsicha e foi esperar o Senador na porta do Senado. Assim que este apareceu, como era rotineiramente os repórteres se aglomeraram. José Brasil abriu caminho entre os microfones e tentou fazer com que o Senador comesse as salsichas à força. Novamente os seguranças da casa tiveram que impedir que José agredisse o Senador. Agora um pouco mais enérgicos esqueceram que ele também era um político há muito tempo freqüentador do plenário e a casa fizera uma proibição formal ao trânsito do antigo político José Brasil da Anunciação pelo ambiente do Senado. Era o fim à sua carreira política. Um soco.

Mas José não se deu por vencido, no mesmo dia ocorreu-lhe a idéia de recorrer à zoonose de Brasília. Porque eram peritos e em matéria de cachorro jamais poderia se enganar, uma palavra, e a sociedade cairia em si. Quem o atendeu foi um sujeito de poucas afinidades. Com ar de um cidadão comum José contou em pormenores sobre o Cão Pastor que andava se passando por gente. Mas antes que terminasse o funcionário o interrompeu: “Ih eu não mexo com esse tipo de gente não. Aí no congresso já escapei de umas boas. Essa gente protege mais cachorro que gente. E é melhor o senhor saindo daqui que tenho muito que fazer. Caso encerrado”. Foi o último soco.

Depois daquele dia José se entregou totalmente à depressão. Jogou-se na cama e não levantava mais nem pra tomar banho, há uma semana não comia. Falhara com Brasil, com a profecia de sua mãe e consigo mesmo. Então viu que era um homem só. Sem família, sem filhos, sem parentes, sem tentáculos. Não percebeu que em busca de sua ideologia se distanciou de tudo aquilo que se chamava sociedade. Parecia um parente distante do homem. E dia-a-dia, gradualmente, suas lembranças, sua consciência se apagava. Mas mesmo deitado não conseguia se conformar com o Brasil, e os brasileiros, que não enxergavam, que se curvaram para uma aberração, deixando-se guiar para o deleite e usufruto de um ser que se encaminhava para a presidência da República, onde sua força seria ainda maior, em breve os seus parentes cães, lobos, raposas ocupariam os cargos mais importantes transformando o país todo em um reduto canino, onde os brasileiros começassem a ganir e agir como cães, domesticados para os verdadeiros cães nos poder.

José precisava se levantar mais uma vez, sua mente confusa lhe motivava: “Vamos Zé, você é o homem que nunca desisti, vamos, vamos...” Sendo assim se levantou. Estava irreconhecível, muito magro, barbudo, sem forças, mas o terno lhe disfarçou bem. Tinha em mente procurar o presidente da câmara. Homem fantasioso que não duvidava de nada neste mundo. Principalmente, quando almejava se tornar candidato a presidente do Brasil em lugar do seu concorrente do Senado. Mas quando José, segurando sob o braço um maço de jornais velhos, entrou sem ser reconhecido pelo hall do Senado, em vez de ir à câmara,  não havia ninguém no plenário. Era pausa. A minoria de senadores que apareceram naquele dia e seus assessores estavam fora, em seus gabinetes ou na lanchonete do Senado, fazendo lobby, conversando, tomando cafezinho. Em seus lugares no plenário onde estavam sentados ficaram apenas os paletós cingindo as cadeiras, e os laptops em frente a elas. José tomado de emoção moveu-se entre as cadeiras com os paletós, parou em frente da mais alta delas e falou em voz alta e firme como se um general pronunciasse: “Senhor presidente! Vim pedir-lhe a reparação de um erro em que estamos todos envolvidos. O presidente do Senado é um cachorro. Todos o vêem como cidadão respeitado. Mas não passa de um ladrão. Um larápio. Que se faz passar por gente para corromper toda a nossa sociedade. Exijo-lhe, não em favor da minha posição de colega, mas de cidadão, contribuinte, que se tome providências urgentes ou corremos o risco de sermos transformados todos em cães, em cães! Pois isso só pode ser obra do Diabo...”   Não teve mais tempo, os seguranças já haviam o descoberto. Dessa vez, conseguiram interná-lo, com a ajuda de alguns poucos amigos que ainda lhe acudiram, para o seu bem. Mas José nunca mais se recuperou. A dor de não ter sido ninguém quando a velhice chegara o enlouqueceu? Parece que sim. É o que todos diziam nos bastidores do congresso, de parlamentares a jornalistas. Outras piadas e mais histórias apareceram até que um dia José Brasil da Anunciação foi completamente esquecido.  

Quanto ao Senador Cão Pastor? Olhemos mais uma vez como anda. Já de carreira acertada, envia desculpas pelo assessor por não poder nos atender. É que a vida anda ocupada, preparando se para daqui a três meses concorrer à presidência da República. Pelo visto há boatos que já são verdades ou nascem para ser.